Sunday, November 30, 2008

Uma Fábula Urbana - O outro lado!


Incrível....


Estava despretenciosamente lendo um livro de contos da Lya Luft, quando na pág.101 me deparo com o seguinte título: Encontros (O silêncio dos amantes, Record).

Não poderia deixar de publicar aqui, afinal, depois da Fábula Urbana do Livro Perdas e Ganhos, ela escreveu esse maravilhoso conto, sobre o outro lado da estória.


"Acordou com dor nas costas. Não era bem dor, mas um desconforto. Nem era no lugar onde às vezes lhe doía, mas abaixo das omoplatas. Pensou, tenho de começar a fazer ginástica, alongamento, só caminhar três vezes por semana não basta.
_Isso é dos nervos. Você tem de arrumar um amante pra trepar - lhe disse a amiga desbocada -, porque com seu marido sei que você nem trepa mais.
_Trepar a gente trepa - ela respondera sorrindo meio sem graça -, mas com parcimônia - e riram as duas, daquela intimidade de colegiais.
Notou que andava mais inquieta e distraída. Os filhos pareciam mais barulhentos, tudo no marido a irritava, até o barulho de sua mastigação e sua mania de pigarrear. O trabalho estava mais cansativo. Seus pensamentos fugiam mais vezes da realidade que, embora monótona, era um conforto. Este é o meu lugar no mundo, pensava, retornando para casa no fim de cada tarde. Esta é a minha tarefa no mundo, pensava, fazendo as compras com a lista de supermercado (...)
Num outro dia saindo do banho e olhando-se no espelho nua, examinou-se de frente, o ventre um pouco flácido, os seios nem de longe os seios gregos que o marido beijava com tanto ardor nos primeiros tempos. O cotidiano convívio havia-lhes roubado o fervor. Avaliou seu corpo também de lado, e viu com pavor que havia duas marcas longas espáduas abaixo, duas listas nascendo logo debaixo dos ombros e descendo até quase a cintura: convexas, saltadas com cicatrizes enormes, dois dedos de largura.
Tentou tocar-se meio sem jeito, difícil de alcançar, mas conseguiu: aquilo era mágico, ao toque de seus dedos começava a palpitar. Pensou: Se for câncer é um câncer muito esquisito, e de tão grande nem adianta falar porque devo estar morrendo mesmo.Mas o rosto estav bom, a pele saudável, a cor razoável, não tinha ar de doente terminal. Decidiu esperar um pouco pra ver no que dava. Sua mãe fazia assim quando eram pequenos: Se daqui a três dias continuar doendo, a gente procura o médico.
_Você anda distraída, hein mãe - lhe disse o filho um dia.
O marido não percebia nada. Mas ele não costumava mesmo prestar muita atenção. Insatisfeita com tudo, a mulher resolveu trocar a cor do cabelo (...) Saiu do salão sentindo-se uma rainha egípcia. Quando o marido entrou no fim do dia, ela o aguardava ansiosa por dividir com ele ao menos aquela novidade e, radiante porque achava aquela transformação uma beleza, perguntou assim que o viu na soleira:
_ Notando alguma coisa nova, bem?
Ele parou, sorriu inseguro, olhou em torno, olhou para ela, abriu mais o sorriso e finalmente disse:
_ Você trocou o tapete?
Ela não se zangou, lembrando quantas vezes fora impaciente com ele, quantas vezes criticara seus gostos e ironizava suas pequenas manias, quantas vezes fora pouco generosa. Aquela era a vida dele. Aquele era o seu lugar no mundo. E não era inteiramente ruim.
Certa vez estava pensando em alguma bela coisa erótica, o que há tempos não fazia, sozinha em casa depois do banho, e tocou-se como há muito não se tocava, pensando: Bom, se vou morrer mesmo, ao menos me divirto um pouco antes. pois os sinais nas costas estavam mais destaccados, e o desconforto maior, como um ímpeto que precisasse muito sair dali - então na hora do supremo prazer deu um salto e sentou-se, achou que explodia , e de repente começou a lançar-se acima da cama.
Olhou assustada sobre o ombro esquerdo, e notou que nas suas espáduas se abriam duas asas. Com esforço e um terror inicial, conseguiu aterrissar de novo, quase que batera com a cabeça no teto. Andou até o banheiro, com cuidado para não levantar vôo ao menor movimento.
E, quando se contemplou, achou-se belíssima. Achou-se especial. Uma mulher nua com duas asas que logo aprendeu a manejar, abrir, fechar, levantar, dobrar de novo como um leque enorme. E - mais estranho de tudo - não teve medo mas alegria. Era isso: não estava morrendo de um câncer. Era mágico, ela estava virando anjo. E a dimensão desse segredo quase a derrubou.
No começo foi difícil acomodar as asas debaixo da roupa, pois mesmo que dobrassem direitinho faziam um certo volume. Começou a usar roupas mais folgadas. E como ninguém em casa ligasse muito pra ela, logo se sentia à vontade com o seu segredo.
Mas dava-lhe uma certa pena não ter a quem contar aquilo. O marido, nem pensr. A vida deles estava tão organizada, que não permitira um interferência daquelas, nunca se sabia quando as coisas começariam a desmoronar, e aí nada mais poderia conter a ruína. (...)
Iam interná-la como doida; iam querer operar e cortar as asas; iam botar na televisão como monstro; iam isolar e manipular em algum centro de pesquisas, sabe-se lá. Para aliviar a agonia secreta dessa possibilidade, de noite saía para o pátio da casa, abria as asas e voava. Como uma mariposa gigante, sobrevoava o cotidiano enxergando tudo de outra perspectiva, mas completa e mais vasta.
Num daqueles volteios, descobriu, não muito longe, um homem apenas olhando o céu da sacada de seu apartamento. Gostou dele, gostou daquele seu jeito,e ficou observando, pousada num telhado. Desscobriu onde ele vivia; onde trabalhava; por onde andava no cotidiano. E começou a encontrá-lo fingindo que era por acaso, e tomaram juntos um cafezinho, depois foram o cinema, e finalmente decidiram que estavam apaixonados e tinham de viver aquilo.
Ela teve muito medo de que ele descobrisse, e do que fria ao descobrir.
Mas como paixão é glória e insanidade, consentiu, e encontraram-se, e quando ele insitiu em que tirasse a roupa, da primeira vez ela não quis, fazendo-se envergonhada.
Em outro dia, porém, ficou mais impaciente e ansiosa, e decidiu arriscar, mas pediu enquanto tirava a roupa:
_ Vamos fazer em pe´?
E quando, na penumbra, se abraçaram e logo começaram a gemer, e se esfregar, e se procurar, ela sentiu entre horrorizada e feliz que suas asas se desdobravam. Mas o amante não se assustou. Não se afastou.
Apertou-se mais a ela, dizendo, vem comigo, vem comigo, vem comigo.
E abriu suas asas também."














1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

mais revelações: E começou a encontrá-lo fingindo que era por acaso, e tomaram juntos um cafezinho, depois foram o cinema, e finalmente decidiram que estavam apaixonados e tinham de viver aquilo.
Ela teve muito medo de que ele descobrisse, e do que fria ao descobrir.




eu devia ter lido isso antes!
Mas acho que já era tarde de mais!!!
queria ter pelo menos tentado salvar.

2:30 AM  

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