Sunday, March 26, 2006

ABIDJAN...Mon doux sejour africain

Estive pensando....no passado. Na verdade desde ontem tenho visto flashes de programas na TV que têm como tema central à África, digo flashes, pois não parei pra assistir nenhum deles...apenas passei pelos canais.
Mesmo que parte dos pensamentos esteja dolorosamente focada no trabalho....a lembrança da África tomou conta de mim e tive vontade de dividir alguns momentos com vcs.
No ano de 2001, mais precisamente no período entre a quaresma e a Páscoa fui a trabalho para a Costa do Marfim (aquele país que passou a ser mais conhecido este ano por participar da Copa do Mundo da FIFA). Vcs. Podem estar achando o máximo ir à África (entendam continente africano) mas para aqueles me que conhecem um pouco melhor, sabem que o meu insuportável ímpeto por coisas novas, situações desafiadoras e por que não da minha “cara de pau” pra enfrentar situações totalmente novas...
Mas vamos lá (literalmente)....Fui à Costa do Marfim resolver problemas de um cliente, relacionado a bens que havia deixado lá, contratos inacabados e até problemas com a ex-mulher (só eu mesmo).
Atendendo a pedidos (e porque não, afinal ele pagou todas as despesas – até minha ida à Brasília para adquirir o visto junto à Embaixada da Costa do Marfim), aceitei levar alguns presentes para seus familiares e dentre eles uma “bendita” bicicleta, que além de levar fiquei encarregada de comprar aqui no Brasil e tratar dos trâmites do despacho – em razão do volume do objeto que seria transportado. Pois bem, minha viagem começaria em Cumbica (São Paulo) em direção a Charles de Gaulle (Paris) e depois Abidjan (Costa do Marfim).
Em Paris tudo normal, mesmo que os franceses não gostem muito, pelo menos os funcionários do aeroporto são capazes de se expressar em inglês, mas na chegada em Abidjan o “bicho pegou”....como foi passar pela minha cabeça que encontraria pessoas que falassem ou melhor entendessem inglês (o meu inglês surrado)?
Já no aeroporto fui surpreendida com verdadeiros gigantes vestidos de uniforme militar (camuflado) que cuidavam da liberação de entrada no país. Dava medo, não posso negar. Passei pelo departamento de imigração e na hora de retirar a bagagem fui informada que a tal bicicleta não poderia seguir. Por que? Porque tinha que pagar uma taxa muito mais cara do que a tal bicicleta...não aceitei e depois de um tempo descobri que era – propina – e não taxa. A bicicleta ficou lá.
Meu cliente, sabendo que não falava uma só palavra em francês pediu que um parente seu fosse me buscar no aeroporto. Por sorte, comprei um dicionário para turista e fui treinando no avião algumas frases centrais.
Com um pouco de fala e muita mímica pedi para o Sr. que me esperava que fosse me encontrar no Hotel no dia seguinte, para me auxiliar na localização dos lugares que deveria ir. Ok, foi assim que aconteceu.
A cidade de Abidjan é uma mistura de suntuosa riqueza com miséria absoluta. Você pode passar por locais e ver casas com molduras em ouro e em outros bairros com um número infindável de pessoas (famílias inteiras) morando nas ruas. Á noite, nesses bairros do subúrbio as calçadas se transformam em casas...vc. não consegue caminhar por elas..são adultos,crianças e bebês dormindo ali. O pior que isso é normalmente encarado por todos.
Lembro que certo dia, esse tio do meu cliente quis me apresentar a um grande empresário da região...Ótimo, fui muito bem recebida em sua casa e fiquei de boca aberta ao ver que toda a decoração da sala (visita e jantar) era em ouro...Sem contar as peles de animais (tigres, leões, etc). Tudo de um mau gosto exemplar...mas que cumpria o papel de ostentar sua riqueza. Ah, esse homem também me apresentou a suas esposas – quatro, mas não fez muita questão de que eu ficasse no mesmo ambiente delas, pois minha aparência e minha independência eram uma ameaça para um povo predominantemente mulçumano.

Os dias foram passando (fiquei lá 12 dias) e em pouco tempo já havia me habituado a cidade e ao seu povo singular... No terceiro dia,descobri que no câmbio negro poderia trocar meus dólares com uma grande margem de lucro...não pensei duas vezes...o tal do câmbio negro era localizado num beco, sem asfalto (isso era normal),mas com muitas pessoas na rua...Entrei no local que o taxista me indicou e lá estavam uns 05 senhores sentados no chão em círculo, discutindo em voz alta...minha presença emudeceu a todos...rapidamente dei o dinheiro (afinal se alí era uma "casa" de câmbio não tinha que explicar por que estava alí) e paguei as notas locais... o lucro era enorme mesmo, por isso aquele lugar virou meu roteiro quase diário.

Tentava cumprir meus compromissos antes do almoço e após aproveitava para conhecer a cidade...Ah, minha aparência nada mulçumana não chamava a atenção dos nativos mas, acreditem, recebi, do nada, dois pedidos de casamento. Um foi enquanto fazia compras no supermercado, por um rapaz da Arábia Saudita...inacreditável... mas ele disse que me via passar todos os dias e que estava encantando..e perguntou se eu queria ser uma de suas mulheres (há há há )...Deus me livre, fiquei morrendo de medo daquele cara me sequestrar e nunca mais voltei no tal supermercado – que antes ia com freqüência. O Outro foi num shopping, também de um cara lá daqueles lados...como já sabia da conversa não dei muita chance do papo continuar e saí correndo dali. Gente, imaginem...estava sozinha naquele país que vê a mulher como objeto, propriedade...tinha razões de me assustar.Depois descobri que eles (brancos) não se casavam com negras e literalmente estava à caça de esposas brancas...

Lembro do dia que fui passear na praia...todas as mulheres vestidas dos pés a cabeça..e eu também é claro (não iria contrariar a tradição local). O litoral é lindo, mas quase deserto...visitado geralmente pelos homens.
Num certo dia passando de táxi por um bairro mais periférico notei que algumas crianças, que brincavam na rua, começaram a correr atrás do táxi e a bater no vidro para chamar minha atenção. Pedi que ele parasse...quando desci do carro fiquei surpresa com aqueles rostinhos me olhando como se fosse um ser de outro mundo...não esqueço de uma garotinha que insistia em apontar as sardas visíveis do meu ombro e caia na gargalhada...Também queriam pegar no meu cabelo...depois soube que todo aquele alvoroço era justificado pela escassa presença de brancos naquelas regiões, loiros, nem se fala. Foi uma experiência única...

Certo dia alguém me disse que no centro de Abidjan estava localizada a Embaixada Brasileira..nossa, aquilo soou de forma tão maravilhosa que peguei o primeiro táxi e me dirigi para lá. Já na entrada a felicidade de ver textos em português e ser recepcionada por um brasileiro...ah, que alivio, tinha tanta pergunta engasgada pra fazer e só conseguiria fazê-las em português...Pra minha felicidade fui recebida pelo Embaixador do Brasil, um senhor da mais alta delicadeza e cortesia. Conversamos durante horas...pelo que percebi ele ficou tão eufórico quanto eu, pois não era comum ter brasileiros perambulando por lá. Fui convidada para almoçar em sua residência e conheci sua esposa (tbém espetacular). Pra demonstrar sua receptividade ele colocou seu motorista à disposição. Nos próximos dias nos encontramos várias vezes e pra ser sincera, depois que retornei ao Brasil trocávamos e-mails constantemente, inclusive enviei alguns livros para esposa dele que apesar de não exercer a profissão era formada em Direito pelo Largo São Francisco. Viramos amigos e bastava enviar um e-mail dizendo que estava preocupada, chateada que ele me ligava de volta para me conceder todos os ensinamentos de uma vida...Era uma pessoa muito espiritualizada com profundos conhecimentos de várias religiões e da cultura africana. Devia ter na época uns 63 anos, mas com uma tremenda disposição para ainda planejar sua próxima embaixada.

Por razões que só o destino pode explicar, depois de algum tempo perdemos contato. Troquei meu e-mail, meu telefone e meu celular...Certo dia liguei para Brasília e soube que ele havia se aposentado...que pena, gostaria de saber como ele está hoje.

Bom, outro dia conto mais....Só pra concluir saibam que consegui retirar a bicicleta lá da alfândega, com ajuda do meu amigo embaixador...foi moleza..afinal algumas coisas são iguais em qualquer lugar do mundo.

Beijos

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Incrível. Não sabia desta sua viagem... super interessante. Mas falando sério.. sei que sua habilidade em escrever e sua eloqüencia vieram da profissão, ou vice-e-versa, mas as suas narrativas vão além do processual. Já pensaste em escrever um livro?

Beijos

10:10 AM  

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